Bem-vindos a Timor-Leste. Sintam-se em casa.
Assim como os irmãos de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe sempre nos acolheram em suas casas durante os anos de trevas.
Estamos situados em quatro continentes diferentes, pertencemos a differentes organizações regionais, cada um com as suas preocupações, problemas, desafios, oportunidades, prioridades, relacionamentos diplomáticos, económicos, financeiros. Mas somos solidários, vivemos os sofrimentos de cada um e celebramos os sucessos.
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Palácio de Lahane, 18 de Agosto de 2026
Estimados Amigos,
Em sentido geográfico inverso, fiz a longa viagem aos vossos países, vezes sem conta, nas minhas variadas funções - MNEs, Presidente, ou em missões confiadas pelo SG da ONU.
Por isso, estou bem ciente de que fizeram uma viagem, exaustiva, para estarmos reunidos aqui hoje. Bem-vindos a vossa casa!
Ressalvo que ainda não visitei São Tomé e Príncipe e por essa falha injustificável eu me penitencio.
Enorme privilégio para nós Timorenses voltar, mais uma vez, a assumir a Presidência Pro Tempore da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa no ano em que a CPLP celebra o seu 30.° Aniversário.
A 17 de julho de 1996 realizou-se, em Lisboa, a cimeira constitutiva da CPLP. Nasceu uma comunidade de países que atualmente se dispersa geograficamente por quatro continentes, reunindo perto de 300 milhões de pessoas em que a comunalidade é a colonização, fronteiras herdadas, culturas e línguas, a solidariedade entre os povos.
A nossa união e o nosso compromisso assentam num conjunto de valores fundacionais de elevado valor para todos os seus Estados-Membros: o Estado de Direito, a Democracia, os Direitos Humanos, a Paz e a Justiça Social.
A 17 de julho deste ano celebrámos, sob o lema ““Unidade na Diversidade, Uma Comunidade para os Povos”, o progresso da CPLP ao longo de três décadas, renovando o espírito fundador da nossa Comunidade por uma CPLP cada vez mais próxima dos seus cidadãos e construída em torno de valores comuns que são um corpo vivo de verdades e projetam a nossa identidade comum no mundo.
As excecionais circunstâncias que conduziram o nosso país à Presidência Rotativa da CPLP contribuíram, em muito, para a escolha do tema que a definirá: “Consolidação do Estado de Direito Democrático e os Desafios para a CPLP”.
Estão num país com 25 anos de existência, reconstruída das cinzas de um passado recente.
Hoje vivemos num oásis de segurança e tranquilidade onde a violência política, tensões e conflitos de raíz étnico ou religioso não existem. Eleições livres e democráticas com elevada participação popular são executadas com total rigor técnico, e os resultados são aceites por todos.
Somos identificados por diferentes instituições internacionais idóneas como sendo a primeira democracia do Sudeste Asiático, primeiro em liberdade de Imprensa e 30o. a nível global, e terceiro país mais seguro depois de Singapura e Malásia.
No ranking de corrupção 2025 Timor-Leste registou progressos situando-se em 73 entre 182 países.

Em 2002 havia 21 médicos Timorenses; hoje temos mais de 1,400. Em 2002 havia uma Universidade, um Timorense com Doutoramento. Em 2026 temos 18 Universidades, 210 doutorados. As Universidades passam por um rigoroso processo de avaliação periódica e re-acreditacão por um team internacional.
Em 2002 a eletricidade era precária e limitada a Dili. Hoje 100% do território nacional está abrangido por uma vasta rede de energia.
A nossa dívida externa é de menos de 14% do PIB, contraída apenas com instituições financeiras multilaterais com juros abaixo de 4% ano. Em contrapartida o retorno dos investimentos do nosso Fundo Soberano tem sido em média de 8% ao ano, muito superior aos juros das dívidas.
De 2002 à presente data, alcançamos registo internacionalmente reconhecido em saúde pública, eliminando seis doenças através de um compromisso político sustentado, participação comunitária e parcerias sólidas com a Organização Mundial da Saúde e doadores globais.
Estas vitórias abrangem três categorias de doenças — doenças preveníveis por vacinação, doenças tropicais negligenciadas e doenças transmitidas por vetores — e representam, em conjunto, um dos registos de eliminação de doenças mais abrangentes de qualquer nação jovem no mundo.
Através do Programa Alargado de Imunização, Timor-Leste eliminou quatro doenças preveníveis por vacinação desde a independência.
O Tétano Materno e Neonatal foi validado eliminado em 2012, resultado da vacinação sustentada com toxoide tetânico de mulheres em idade reprodutiva e da promoção de práticas de parto seguro.
O sarampo foi certificado como eliminado em 2018, na sequência de campanhas de imunização suplementar que atingiram uma cobertura populacional superior a 95%.
A rubéola e a Síndrome da Rubéola Congénita foram certificadas como eliminadas em 2023, protegendo as gerações futuras de crianças timorenses de malformações congénitas causadas pelo vírus.
A poliomielite, embora integrada na certificação regional mais alargada da OMS para o Sudeste Asiático em 2014, foi sustentada e confirmada através da própria infraestrutura de imunização construída por Timor-Leste após a independência.
Registamos duas eliminações adicionais de especial relevância para uma nação tropical.
Em outubro de 2024, a OMS validou a eliminação da Filariose Linfática — também conhecida como elefantíase — tornando Timor-Leste o 54.º país no mundo e o primeiro no Sudeste Asiático a eliminar a doença utilizando a terapia tríplice recomendada pela OMS. Este resultado seguiu-se a mais de uma década de campanhas de administração em massa de medicamentos realizadas em todos os 13 municípios.
Posteriormente, a 24 de julho de 2025, a OMS certificou oficialmente Timor-Leste livre de malária — o terceiro país da Região do Sudeste Asiático a atingir este marco —, após ter reduzido os casos de um pico de mais de 223.000 em 2006 para zero casos indígenas a partir de 2021. As duas certificações obtidas em menos de dois anos constituem um feito sem precedentes para qualquer nação tropical jovem.
A tarefa não está concluído. O país lançou um Roteiro Nacional para Zero Lepra, com meta de eliminação até 2030, prossegue com a vigilância pós-administração massiva de medicamentos com vista à certificação de ausência de bouba (Yaws), e está comprometido a reduzir a incidência da tuberculose em 80% até 2030.
Pugnamos pelo multilateralismo e pelo seu papel vital na promoção do diálogo, concertação político-diplomática, cooperação multissectorial para a resolução de problemas globais que nos afetam a todos enquanto Humanidade.
Em outubro de 2025, Timor-Leste tornou-se oficialmente o 11.° Estado-Membro da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), um bloco regional, abrangendo uma população de perto 700 milhões de cidadãos, com um PIB anual de 4 triliões de dólares americanos, a terceira maior economia na Ásia.
Timor-Leste reitera a sua firme determinação em construir pontes de parceria estratégica entre o espaço da CPLP e o Sudeste Asiático, assim como com a India, a China, a Coreia do Sul, o Japão, a Austrália e a Nova Zelândia.
Apostamos em sermos um entreposto comercial, um hub de inovação numa das regiões económico-financeiras mais dinâmicas do mundo. Todo o país está ligado por fibra ótica e está conectado via cabo submarino com a Austrália.
Ao assumir a Presidência Rotativa da CPLP Timor-Leste recebeu em herança a tarefa de garantir a coesão, a unidade da Comunidade, contribuindo para erguer um espaço onde são promovidos o Estado de Direito, a Democracia, os Direitos Humanos, a Justiça Social, a Inclusão e o Desenvolvimento Sustentável, transformando os laços inevitáveis que nos juntam em caminhos de partilha, de cooperação e de solidariedade efetiva em benefício dos nossos cidadãos.
Após três décadas de percurso, a CPLP encontra-se atualmente num momento decisivo de reflexão. Perante os desafios presentes a Comunidade não pode correr o risco de deixar que uma série de emergências decida, em seu lugar, a direção do caminho que decidiu cumprir.
Que Deus nos abençoe a todos!
J. Ramos-Horta.

